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bêbadas

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canção da vida nova

Então uma canção abre  janela, mundo, eu liberta. O coração se aperta, estranho,  o vento bagunça o cabelo, eu percorro uma estrada num conversível vermelho, sinuando a montanha, o mar gritando ao lado, espumando o ar. Eu estou só e eu canto alto a canção da minha vida,  no repeat ad infinitum, porque toda mentira repetida muitas vezes pode um dia ser verdade, então eu acredito.

[E tudo será tão perfeito, e tudo será tão bonito.]

Eu nem sei pra onde vou, por onde vago, mas há um céu azul sinalizando sorte,  há o frisson das coxas,  o rachar dos lábios no encontrar do vento, há longos cabelos a lamber a face e a presença forte do amor que imagino.

Que toquem os sinos, aleluia.
E que eu desfrute de todos os clichês que mereço.

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(inspired by Fix you)

é hoje

Que hoje começa o resto da minha vida. E dizer assim “o resto da minha vida” tem um gosto estranho, tem cheiro de preguiça e cansaço – ao mesmo tempo em que dá um alívio e parece que pro “resto da minha vida” falta só uma semana.
E o que eu faria.
Uma semana pra viver o resto da minha vida, o que eu faria.
Afastadas as soluções que a gente sempre imagina, como largar tudo e ver o mundo. Uma semana pra ver o mundo, nem seria tanto, mas compensaria. Compensaria? Abraçar um golfinho e ver de muito perto um urso polar, eis os maiores sonhos do mundo.
Mas ainda que compensasse a gente viver todas as coisas antes de partir, supondo que após a partida restasse alguma lembrança, a verdade é que eu não tenho grana nem pra ir a Goiânia. Fica descartado, portanto, o sonho de ver um golfinho, perdida para sempre a emoção suposta (tantas vezes antecipada em devaneios incríveis) de ver um urso polar tão branquinho que parece abraçável.
Uma semana antes de partir, e de certo não vai nevar em Brasília. Uma semana e não vai dar tempo de emagrecer o bastante, nem se eu tomar shake de chá-verde 8 vezes por dia. Fica descartada a hipótese de ser magra, fica descartada a hipótese de conhecer, na pele, a neve, de levar na retina uma qualquer imagem branca, descartada para sempre, definitivamente, como a morte.
E não ter visto de perto a neve, não ter nunca experimentado as gargalhadas das brincadeiras possíveis, não ter rolado e enchido de neve o cabelo, nem ter um beijo roubado, gelado e fresco e branco como deviam ser todos os invernos, para merecer o nome. Uma semana, então, para reconhecer o meu fracasso imenso de ter vivido tanto sem ter podido nunca realizar um só sonho, um único. Nem meu nem dos meus filhos, que a eles também nada dei, só emprestei talvez um dna meio torto que os condena, ou quer condenar, ao mesmo destino vão.
Que olhar em volta me dá a dimensão das coisas inacabadas, as coisas todas inacabadas que eu, grande fracasso, forjei. Eu me consolo pensando que cada uma delas foi um sonho que eu tentei, mesmo não dando certo. E resta uma semana pra eu entender o que foi que fiz de tão errado para estar hoje olhando em torno e tudo ser tão triste e sombrio, tão diferente do que eu achei que podia,  uma semana pro fim de tudo, eu sem entender como foi que lutei tanto e tanto, como foi que tentei tantas coisas, sem nunca desistir, sem jamais pensar que a vitória não estaria ali, doida pra me dar um susto, na curva seguinte – e mesmo assim, nada conquistei.

(Uma pausa para dizer que eu já pensei tudo que você, leitor, pode estar pensando agora, e que fui grata por todas as coisas que a vida deu, de bandeja, eu fui grata, eu sou, e mesmo quando a vida sacaneou aqui e ali, eu continuei Poliana. Portanto, não pondere, não tente me consolar: eu tenho a sina de pensar demais, eu já pensei tudo o que você pode querer me dizer. E se você está no grupo dos que realizam os próprios sonhos, por favor, se afaste, que hoje eu não dou conta, não.)

Uma semana, se me faltasse uma semana. E o que eu faria.

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eu não sei, mas gostaria de poder chorar, sem pudor, e de dizer que não, nada valeu.

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Que hoje começa o resto da minha vida e é preciso buscar um significado para a minha presença, sentido para acordar e fazer todas as coisas que nada mais são que as mesmas coisas de ontem, e da semana passada, e do ano anterior, esse suceder de pequenas complicações e dificuldades e chatices, com algumas risadas eventuais. Que, é preciso reconhecer, tenho sido poupada das dores imensas, abram-se os céus, eu agradeço. No entanto, essa dor comezinha,  essa dor miúda de saber-ser nada, essa dor da fingidez de acreditar possuir alguma relevância nesse tabuleiro, essa dor de pretender coisas bobas que jamais se concretizam, essa dor dos pequenos fracassos cotidianos, essa dor que vira essas dores, um colchão feito de microagulhas que, se não furam, se não rasgam, ficam alardeando incertezas, como um dedo maldito apontado, tornando o sono impossível.

Que hoje começa o resto da minha vida e ele já nasce morto, inviável. Que eu sei, agora,  que eu não verei ursos nem abraçarei golfinhos, essas coisas tolas tão mais fáceis que tocar piano, frustração a que também me acostumei porque nasci sem berço e ainda que houvesse dinheiro para comprar um piano, ele jamais caberia na minha casinha de vila, mesmo sendo a minha mãe uma mulher tão tudo.

E ao surgir minha mãe nesse jorro meu desta noite em que o resto da minha vida começa, eu encerro esse post. Um dia talvez conte porquê.

Being me

O problema de ser eu é que há sempre tantas portas acesas. Um tal de pode-não-pode, mixado com os e-se da minha vida inteira, um toboágua de emoções contraditórias, bifurcações enlouquecedoras e, não raro, nenhuma água no fim.

E se?

Talvez se eu tivesse casado com B, ao invés de A.
Talvez se eu tivesse entrado naquele navio e arriscado uns meses no Canadá.
Talvez se eu NÃO tivesse casado, indo mochilar na Europa, só pra ver como era.
Talvez se… E se nada disso influenciou nadica de nada?

O problema de being me é pensar em demasia, o tempo todo, feito uma coqueluche galopante. Se eu precisasse me definir com uma única palavra eu diria que sou um surto.

Sim, é preciso admitir: Eu sou um surto.
Na alegria e na tristeza, eu sou um surto.
Mesmo se mantenho a calma e a voz mansa, mesmo se não tremo, se não pulo, eu sou um surto.
Eu sou um surto deitada em minha cama velha, quieta eu (o colchão, nem tanto), o coração aparentemente vazio, nenhum problema exigindo solução imediata, eu sou um surto.  Mesmo no silêncio que ocupa os vãos do quarto, as portas feias do armário me encarando, brancas, mesmo quando decido nada fazer dizer pensar, eu sou inteira um surto. Pelos, poros, cabelos, olhos, mãos de unhas quebradas, tudo surtado, harmonicamente, quase religioso.

E se?

Eu me torturo me dizendo para não fazer assim. Eu racionalizo e me convenço de que não adianta, idiotice da grossa isso de ficar pensando e-se. Eu acredito em mim, eu me apaziguo (se é que este não é um verbo defectivo), eu relaxo, eu sorrio, eu juro que vou ficar bem. Mas aí vem um outro pensamento, agora não importa o passado, é daqui pra frente, não dá pra ficar esperando, deuses!, eu não tenho assim mais tanto tempo, vamos ser pragmáticos.

Eu sou. Pragmatissíssima. Meu nome é quase isso, Ana Pragmática, muito prazer, vamos entrando.
E por ser assim tão tudo isso, tenho que encarar: só faço merda. Merda atrás de merda. Se enfileirasse, dava para deslizar no fio das minhas merdas até o Oiapoque. Eu fiz e faço tanta merda que nem sei porque sou assim tão otimista.

Sim, sou otimista. Casei com A, deixei B para trás, decerto havia nisso um propósito maior, mesmo que eu não compreenda, é o que sempre penso. Minha religião é o otimismo. Meu vício, idem. Sou uma otimista incurável, mesmo quando me sinto derrotada, velha e descrente. Eu consigo ser otimista até mesmo quando penso que não resta mais nada e tudo vai dar errado – ou, se não for assim, eu não vou ter o tempo de ver acontecer diferente, porque vou morrer antes.

E é talvez por ser tão otimista que os e-se do futuro me atormentam, feito agora.

E se eu abrisse uma pizzaria?

E se eu escrevesse um best seller?

E se eu me tornasse terapeuta sexual?

E se eu ficasse gostosa para arrumar marido?

E se o meu livro de poesia ganhasse um Jabuti?

E se eu parasse de escrever este post e fosse fazer alguma coisa em prol do meu destino?

Digo ao motorista do táxi:

– Siga aquela vida!

*

o bom de um fone é poder criar um mundo paralelo onde apenas a música penetra – entra pelos ouvidos, alcança veias, se espalha pelo corpo feito um vírus bom.

o ruim de música na veia e mundo particular é não querer nunca mais me mover, que o mundo que eu crio é doído, mas fresquinho.

*

eu não ouso dizer o que me acontece porque no fim escrever virou uma preocupação que eu jamais deveria ter. tenho me censurado e isso é tão ruim.

*

Em São Paulo, para o taxista:

– Rumo à Liberdade, rápido!

*

 

canções de transformar

Domingo, 16h57. Outubro. Ano estelar.

Daqui a pouco tem futebol, coloquei um bolo para assar. Acho que odeio futebol, mas adoro bolo, então fica uma coisa pela outra.
A receita eu inventei hoje, talvez não dê certo, eu nem vou sofrer mais do que já sofreria por ser domingo, eu não ter vida, haver futebol e o bolo solar.

Sola, bolo. Sola forte, me impeça o consolo das tuas calorias, da cafeína do teu cacau;
me impeça a visão do teu marrom-escuro, me roube a sensação do teu sabor na minha língua.
Sola, bolo.
Sola forte, inapelavelmente, sola com vontade, quem sabe assim eu me emputeço de vez e quebro tudo,
quem sabe eu me liberto, quem sabe eu grito o vaitomarnocu, mundo que me entala a faringe e me atrapalha os boquetes?

O Ministério do Sexo adverte:  não há boquete possível com vaitomarnocu atravessado na faringe. Mesmo quando não se é exatamente uma garganta profunda.

Estou no meu quaos. O namorado jaz, seminu, na cama pequena e vagabunda atrás de mim.  (Jaz significa preguiça. Seminu significa pronto pra foder a qualquer tempo.  Portanto, meu namorado está de preguiça na cama porque eu estou de costas ouvindo músicas suicidas e escrevendo este post.) O namorado vê um qualquer desenho japonês nerdpaunocu enquanto aguarda o radiante momento dominical: a porra do futebol. Ok. Meu bolo tá assando. Sei lá. A batata também.

Tanta alegria, era para ser tanta alegria. É domingo, amanhã é feriado, tem futebol e bolo de chocolate, tem um homem seminu na minha cama. Sério, tudo isso junto dá uma vida inteira de alegria! A merda é que eu sou a pessoa errada. Yeah. Eu.

A luz atravessa a janela francamente aberta, há pássaros cantores do lado de lá – e um homem seminu, repito, deitado em minha cama, esperando por mim e pelo futebol – quem chegar primeiro, leva tudo. Eu, no meu computador de tela enorme, tento organizar os sentimentos despertados pela melodia e letra de Flinch. (Yeah, eu tenho essa patologia, eu gosto da Alanis, eu gosto perigosamente.)

What are you my blood? you touch me like you are my blood
What are you my dad? you affect me like you are my dad

Flinch no repeat. Eu sinto uma alegria estranha, incomunicável. Há certa incompatibilidade entre o que parece ser alegria e a minha gana de destruir. Olho em torno e me vejo tão far far away from here. Olho em torno do quaos, das coisas que conheço e nada se parece remotamente comigo, eu não pertenço a nada e é preciso pertencer, é essencial pertencer.

What are you my kin? you touch me like you are my kin
What are you my air? you affect me like you are my air

Tudo o que tenho para dizer, tudo, alguém suportaria?

Vamos de Flinch na veia.
Outra vez e mais uma, que a canção me draga e me coloca no lugar-nenhum que é meu lugar, levitando acima, personagem, as coisas, os fatos, as pessoas, os lugares, tudo é apenas cenário, eu assisto como quem produziu, mas não vai dirigir porque há um cansaço tão tão grande.

******

É preciso dizer que estou com tosse. Peguei uma gripe esta semana, depois de escapar de muitas.
Todas as pessoas antes de mim que pegaram essa gripe tiveram tosse. Algumas, como uma amiga que veio há mais de 10 dias da Europa, já se livrou da gripe, mas permanece com a tosse. Outro amigo também tem tossido bastante. E pessoas do trabalho atravessam o mesmo   caminho de sintomas. Eu vinha escapando.

Mas agora gripei, os espirros e nariz escorrendo ficaram para trás, mas a tosse persiste. Seca. Não vem em acessos, mas em cofs cofs roucos e secos a intervalos mais ou menos regulares. Agrava a tosse o meu vício em ventilador. A depender da intensidade do vento e do lugar onde bate em mim, é tosse na certa, mesmo se eu não estou gripada.

Foi sempre assim na minha vida. Eu tenho 46 anos. Eu fumo.
Minha amiga e meu amigo que também estão com tosse não fumam.
Meus colegas de trabalho que tiveram a mesma gripe não fumam.

Então, se você é do tipo que acha que todo mundo que tosse é porque é fumante, faça  um favorzinho pra mim:

vaitomarnocu

e bom domingo.

confrangido coração

… e há aquelas noites em que o suplício dos nãos brinca de roda em volta do coração da gente. E a gente olha o céu que sempre amou buscando remédio para agonia. E o céu é tão imensamente preto. E não há tempo para chorar todas as mortes miúdas que nos desolam. E o céu é tão imenso e preto. Imenso como o coração confrangido.
Porque um coração confrangido é maior que a gente, é maior que qualquer céu que alguém invente.
Um coração imenso, negro e confrangido. Um gato amarelo esperando em casa, alheio.
Tantas são as razões para ficar vivo.

Nálu, celebrando a primavera

(postado originalmente no blog antigo na quinta-feira, 22 de setembro de 2005)